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RELIGIOSIDADE - PARTE I

“Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças” (Luc 15:25). Assim, que ele vai se aproximando de sua casa, ele escutou algumas coisas “estranhas” aos seus ouvidos: músicas, danças, gritos, festa, etc, e estas lhe trouxeram uma série de questionamentos que fará em seguida. O fato é que a marca dos fariseus era a rigidez. Você sabe que quem pensava diferente deles, corria o risco de morrer. Foi isto que aconteceu com Jesus e com todos os demais discípulos. Quando o irmão mais velho e se depara com um quadro diferente em sua casa, todas estas coisas lhe fizeram muito mau e ele foi obrigado a discordar de cada uma delas.

Os fariseus, na maioria, estavam sempre fechados ao diálogo. O pensamento deles era a verdade, e fim de papo! Esta é também minha preocupação em relação aos evangélicos e líderes da atualidade. Você não acha que neste quesito somos muito parecidos com os fariseus? Você já percebeu também, que em nosso meio, se alguém pensa diferente do outro, praticamente não se pode conviver mais juntos? É muito comum, em nosso meio, os tradicionais criticarem os pentecostais, e igualmente, os pentecostais criticarem os tradicionais. Mesmo dentro de uma denominação específica, discordar de algum ponto, é correr o risco de “perder a cabeça”. Sabe por que? Há “fermento de fariseus” em nossa mentalidade! Esta mesma rigidez teológica e litúrgica do farisaísmo é uma realidade no nosso meio.

Já desde 1994 que tenho visitado as mais diferentes denominações evangélicas deste país e algumas até fora do Brasil. O nosso curso também já formou mais de 1000 pessoas, desde esta data. Eu creio que Deus me deu um ministério inter-denominacional. Mas por que estou dizendo isto? É triste constatar, mas quando vou em qualquer lugar, e quando o pastor me pega no aeroporto, e temos oportunidade para conversamos sobre sua igreja local, sua cidade, etc., sempre surge uma conversa do tipo, “mas pastor Alcione, há um sério problema em nossa região”. Quando o pastor diz isto, ele não precisa nem terminar a conversa porque eu já sei o problema: As igrejas e nem os pastores se unem! O problema é que eles acham que este é um problema apenas da sua região, não sabendo que esta é uma realidade quase que generalizada do evangelho em solo brasileiro: a nossa desunião. Na última viajem que fiz neste fim de semana, numa cidade do Rio de Janeiro, o pastor me disse que em conversa com um funcionário público da região, envolvido na política da cidade e também espírita, ele disse ao pastor, “Mas é incrível como vocês evangélicos não se unem para nada!”. O que responder mediante uma afirmação tão verdadeira como esta?

Você sabe por que temos tanta dificuldade para nos unir-mos? “Fermento dos fariseus”, espírito de religiosidade em nosso meio. Lembre-se que a marca dos fariseus era a rigidez e um pensamento completamente fechado. Mas aprendemos com Jesus e com os demais apóstolos, que tal realidade não se passava assim no primeiro século. Fiquei surpreso com o relato de Lucas, quando ao registrar os primeiros anos de Jesus, descreve um episódio um tanto “embaraçador” para os seus pais. Jesus quando tinha apenas seus doze anos, permaneceu em Jerusalém dialogando com os doutores da lei da época, enquanto seus pais regressavam para a Galiléia. Ao darem-se conta disso, Maria e José voltaram a Jerusalém atrás do seu filho. Ao encontrarem-se, Maria disse a Jesus, “Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura” (2:48). Veja a resposta de Jesus, “Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?” (2:49). Sempre vi esta resposta de Jesus aos pais num tom de “mal-criação”. No entanto, diz o versículo adiante, que Jesus “desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso” (2:51). O fato é que temos aqui duas opiniões divergentes. Maria chamou a atenção de Jesus, e ele deu a ele o seu parecer. Não havia nesta época em dar “opiniões diferentes”. Pensar e falar o que se pensa, mesmo que isto seja diferente do que o líder ou um pai acha, não é rebelião. A Escritura diz que Jesus era-lhes em tudo “submisso”.

Paulo também quando escreveu aos filipenses, dando seu parecer doutrinário em algumas áreas, disse também a esta igreja, “e se, porventura, pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá. Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos” (3:15,16). Paulo não disse: Se vocês pensarem diferente, são do capeta! Também não disse, “eu é que sou o certo, se pensarem de outro modo, tratem de mudar de igreja, porque aqui não poderão ficar”. Nada disso, o apóstolo era maduro o suficiente para respeitar opiniões divergentes das suas, que não implicavam as linhas mestras do evangelho. Há uma outra passagem, onde o próprio Paulo emite sua opinião sobre o casamento. Ele achava que era melhor ficar solteiro, para que assim pudesse se servir melhor ao Senhor. “Com respeito às virgens, não tenho mandamento do Senhor; porém, dou minha opinião como tendo recebido do Senhor a misericórdia de ser fiel” (I Cor 7:25). Ele disse, “dou minha opinião”. Paulo não foi execrado por isso, muito embora, a igreja de hoje, ache melhor o pastor ser casado ou o próprio cristão, haja vista a declaração do livro de Gênesis, “não é bom que o homem esteja só” (2:18).
Em Atos, vimos Paulo discordar de Barnabé, no início do seu ministério. Veja o relato,

“ Alguns dias depois, disse Paulo a Barnabé: Voltemos, agora, para visitar os irmãos por todas as cidades nas quais anunciamos a palavra do Senhor, para ver como passam. E Barnabé queria levar também a João, chamado Marcos. Mas Paulo não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho. Houve entre eles tal desavença, que vieram a separar-se. Então, Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre. Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu encomendado pelos irmãos à graça do Senhor. E passou pela Síria e Cilícia, confirmando as igrejas.” (Atos 15:36-41 RA)

Nem Paulo e nem Barnabé foram execrados pela igreja da época, porque divergiram neste ponto em particular, sobre levarem ou não a João Marcos. A igreja respeitou a decisão de ambos. Não creio também que eles tenham se tornados adversários um do outro. Pelo contrário, houve respeito. Isto também deveria acontecer em nosso meio.

Em muitas denominações, falar o que se pensa e divergir de um pensamento, é um ato aberto de rebelião. Desta forma, as pessoas se calam e acabam falando nos bastidores. Eu prefiro estar do lado de alguém que divirja de mim em algum ponto e me fale (e caminhe comigo), do que alguém que acena positivamente a cabeça para tudo que falo, mas por trás ou no seu coração, diz ou pensa exatamente o contrário. Não é problema nenhum o liderado chegar ao líder e dizer, “Meu pastor, neste ponto, pensamos diferente por causa disso, disso e disso…mas saiba que respeito sua liderança, e permaneço fiel a ela e também respeito o seu pensamento”. Lembrem-se pastores: nós não somos “Deus”, por isso nem tudo que falamos é a mais pura verdade. Aceite pensamentos diferentes dos seus, ore acerca disso, só assim poderá crescer e não ser traído lá adiante, por alguém que “aparentemente sempre caminhou ao seu lado”. Seria uma benção se tivéssemos maturidade para isso, mas como você sabe, na maioria das vezes, não é assim que as coisas sucedem-se.

Quando precisei desligar-me de minha denominação de origem, por divergir de alguns pontos, primeiramente, fiz todos os esforços para permanecer lá, mesmo sabendo que não concordávamos em todos os pontos. No entanto, como eu mesmo já previa, pensar diferente no meio evangélico, é ser muito mal visto pela maioria. Constrangido a desligar-me, após ler minha carta de desligamento e agradecer à denominação por tudo que havia aprendido ali com eles, fui saindo por aquele corredor muito constrangido. No meio de mais ou menos uns 60 líderes, não me lembro de ter sido abraçado ou de receber o aperto de mão de não mais que um irmão. Fiquei muito triste. Por que tem que ser assim? Não iremos morar no mesmo céu? O que nos impede de caminharmos juntos e vivermos o amor que Cristo nos ensinou, por discordamos de coisas tão pequenas? Será que no céu moraremos em condomínios fechados e com cerca elétrica, onde quem discorda em algum ponto de nossa teologia não poderá entrar? Não tenho dúvidas de que há “fermento de fariseus” em nosso meio, a religiosidade entrou em nossos corações.

Não sei se concordará com o que vou dizer: Em nosso meio, pensar diferente, é correr o risco de ser tão maltratado como o próprio diabo! (talvez até mais maltratado). Passamos a ser a escória da denominação ou da igreja e tornamo-nos na visão de muitos o pior dos inimigos! Posso estar errado ou até mesmo exagerando, mas esta é a minha impressão pessoal. Dentre as mais de 150 igrejas que já dei seminários de um final de semana, vem-me a mente, uma que precisei viajar longas horas para estar lá. O pastor tinha algumas dificuldades com a teologia da batalha espiritual, mas ainda assim decidiu convidar-me após ler um dos meus livros. Chegando lá, fui muito bem recebido, com toda alegria. Preguei na primeira noite, tudo estava bem, nada contrariou a teologia deste pastor, por isso, ele nos levou para comer fora na primeira noite. O problema começou a partir do segundo ou terceiro dia, quando algumas idéias já não mais batiam. Resultado: ele já não passava para nos levar para comer. No primeiro dia, pedimos um marmitex, no segundo, solicitamos a ele que alguns irmãos nos levassem para comer. No final do seminário, nem foi despedir-se de nós. Eu fiquei muito triste com isso. Porque é tão difícil sabermos respeitar as diferenças e aprender com elas!?

Quero concluir este tópico, dizendo o seguinte. Se tivermos esta mentalidade religiosa tão rígida a ponto de não sabermos reter o bom, respeitar as pessoas, amar os diferentes, saber que não sou o dono da verdade e que o outro pode estar certo e eu errado, cuidado que Deus poderá nos fazer uma grande surpresa. Já imaginou se Deus, nas mansões celestiais, o colocar para morar ao lado de um vizinho egresso de uma denominação ou teologia que mais detestava aqui na terra? Se não suportava, por exemplo, os pentecostais por causa das “línguas estranhas”, já imaginou ter de conviver com seu vizinho falando em línguas o dia todo? Mas se você detestava e criticava os tradicionais pelos hinos cantados das harpas, já pensou ter de conviver com algum deles cantando tais canções o dia todo no seu ouvido, por morarem exatamente ao seu lado? Imagine também você ter de morar ao lado daquele irmãozinho que você odiava por ele ser “amilenista” e não “pré-milenista” como você? Pior: morar ao lado daquele cidadão que acreditava na teologia das maldiçoes, e você o detestava profundamente por causa disso? Quem sabe também morar ao lado daquele teólogo, escritor ou pastor que pregava idéias tão diferentes das suas em alguns pontos (e que você criticava até espumar a boca, a ponto de vê-lo como pior inimigo)? Você irá conseguirá amá-lo?

Saiba: não céu não haverá muros, nem condomínios fechados, nem cercas e talvez nem teto em nossas moradias. Não haverá espaço para se esconder. Você deverá amar e servir a todos!

Alcione Emerich

 

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