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RELIGIOSIDADE - PARTE II

Apesar de ter nascido e crescido num lar evangélico, foi no final de 1991 que de fato tive um encontro com Cristo. Lembro-me que foi uma experiência muito forte. Eu estava tendo algumas experiências de perturbação espiritual (me vendo sair do corpo, por exemplo) e minha mãe pediu-me que fosse ao pastor de nossa igreja para que ele orasse por mim. Embora eu tenha relutado em ir (naquela época, eu estava atolado no mundo, embora freqüentasse a igreja todos os domingos), acabei cedendo e fui ter com o nosso pastor. Naquela sala estava um grupo em oração, muito fervoroso por sinal. Eles começaram a orar por mim e foi algo tão extraordinário, que acabei ali mesmo declarando que minha vida a partir daquele dia era de Jesus.

 

Assim que me levantei do chão, eu já podia sentir uma paz muito grande que invadia o meu coração. Uma alegria grande brotou nos meus lábios. Era a vida de Jesus fazendo grande diferença em minha vida. Eu estava muito empolgado. A partir deste dia, minha vida mudou, e isto já faz quase 15 anos.

Como se vê, a minha conversão foi marcada por muita euforia e entusiasmo. Rapidamente, não sentia mais aquela vontade de estar nos lugares que o mundo oferece comumente aos jovens. Eu Sentia que até minha linguagem havia mudado, era algo muito bom. Tornei-me um evangelista nato, onde qualquer pessoa que cruzasse no meu caminho era imediatamente abordada por mim, através da evangelização. Interessante foi que os vícios de antigamente, foram sendo automaticamente abandonados. Todos estavam impressionados com a minha mudança.

O tempo foi passando e rapidamente quis me envolver nas coisas de Cristo. Aproveitando uma viajem missionária, através de uma irmã em Cristo, saí do meu estado e fui para Pernambuco onde ali permaneci por cerca de um ano e dois meses. Foi para mim uma experiência inédita e marcante, que levarei para o resto de minha vida. Depois, no ano de 1994, retornei para minha cidade de origem, para o seio familiar e foi neste ano que ingressei no seminário teológico. Foi neste ano também que demos início à nossa primeira turma de “libertadores” em nossa cidade . Não preciso dizer, que após esta experiência missionária e estar agora, estudando teologia e ainda abrindo um curso na área de libertação (da qual sou até hoje apaixonado), eu estava a todo vapor, num gás total! Nesta época eu estava com apenas 20 anos de idade. Como se vê, tudo começou bem cedo em minha vida.

Pois bem, um ano se passou, e eu estava “no fogo”, muito empolgado, obviamente. Foi no segundo ou terceiro ano do seminário, que as coisas começaram a ter uma drástica mudança, pelo menos em termos físicos e emocionais. Comecei a perceber que aquele ânimo de outrora, não estava mais tão aceso. Eu me sentia cansado e exausto, um sentimento de prostração começou a imiscuir-se em minha vida. Pior ainda: uma dor de cabeça começou a se fazer mais e mais freqüente. Eu me sentia esgotado, mas não sabia porque. O que fazer? Por mais que eu orasse, jejuasse, falasse, etc., nada mudava. Meu quadro de fraqueza e estresse, só agravava-se. Eu precisava de ajuda, não sabia onde buscar. Finalmente, recorri aos meus pais, pedindo que me orientassem na procura de um médico. Minha me orientou que marcasse uma consulta com um neurologista, conhecido da família, que, aliás, era até cristão. Então fui marcar a consulta e estar com este médico.

Lá chegando, fui submetido a um exame de eletroencefalograma. Claro que eu como crente, além novo convertido e bem envolvido com as coisas de Deus, não entendia porque estava passando por todas as coisas. Finalmente, fui chamado à sala do medico para que ele conversasse comigo e me desse algum parecer. Assim que cheguei, ele me cumprimentou e começou a fazer uma rápida entrevista, sobre quem eu era, o que fazia, etc. Ele de posse do meu eletro começou-me a fazer algumas perguntas: Você se culpa muito não é mesmo? Eu sorri, e disse, é verdade, mas como o senhor sabe disso? Perguntou-me também: Você é perfeccionista? Cobra-se demais? Quando aconselha leva os problemas das pessoas pra casa? Sim, sim, eu fui acenando com minha cabeça. Ele então finalmente olhou para mim e disse, “Se você continuar neste mesmo ritmo e com esta mesma mentalidade, com 40 anos você será um pastor calça frouxa!”, “Você esgotou os limites das suas energias físicas e emocionais”. Ele ainda me disse que precisava passar por uma psicoterapia (naquela época eu nem sabia o que era isso direito) e tomar algumas medicações psicotrópicas (visando repor o desgaste). Mas uma coisa foi enfatizada por este medido: minha mentalidade tinha de mudar imediatamente!

Na minha cabeça, eu imaginava que o meu cansaço se devia aos meus estudos, leituras intensas, atendimentos, etc. Preciso mencionar também o fato de que os meus pais passavam por uma grande crise nesta época, além de problemas financeiros, de saúde, etc. No entanto, vim a descobrir que não eram em si estas situações que me estressavam, mas minha “forma de lidar com elas”. O modo como eu digeria minhas atividades e problemas, foi aos poucos minando minhas forças. Culpa, perfeccionismo, legalismo… eu comecei a perceber que estas coisas guiavam a maioria dos meus pensamentos, decisões e até pregações. Houve um dia que estava lendo o livro de David Seamands (Cura das Memórias) com um grupo de alunos, que era na época minha primeira turma. Neste livro Seamands fala das características de um pregador legalista e tudo aquilo que ele dizia encaixava-se completamente em minha vida. Perturbado, perguntei aos meus alunos, “os irmãos acham que eu sou um tipo de pregador legalismo, como diz este autor?”. Todos acenaram positivamente com a cabeça. Houve até uma irmã que disse, “quando sei que é você que vai pregar na igreja à noite, me dá até medo, pois eu sei que vem cajadada!”. Eu creio que Deus foi usando estas coisas para me chamar a atenção. De algum modo o “meu evangelho” causado medo e uma sensação ruim no coração destas pessoas. O fato é que na minha mensagem havia “morte” (ou se preferir, “fermento dos fariseus”).

Revisando um pouco a minha história, a impressão que tenho hoje é que apesar de novo na fé, naquela época, foi colocado sobre mim um peso muito grande, responsabilidades, ministérios, aconselhamentos, etc. Uma boa analogia para o meu caso: é como se eu fosse apenas uma “casinha” de um pavimento apenas, com uma base bem superficial (suportava apenas uma laje acima), e de repente me vi com dez andares em cima da minha cabeça! Ficou pesado demais. Não responsabilizo apenas a minha liderança, pois de algum modo eu busquei isto também. Hoje vejo como “queimei” etapas na minha vida. Busquei coisas muito rápidas na minha vida espiritual, era como se eu quisesse compensar o tempo que fiquei no mundo, fora do evangelho. Lembro-me até que eu detestava ser chamado de novo na fé, pois apesar de ser um neófito, queria ser visto como alguém maduro e cheio de saberia e conhecimento. Gostava até de usar uma “barbinha” para esconder a idade. Há pouco tempo aprendi com um autor, quando este mencionava a palavra de Isaías 61, falando um pouco sobre o “carvalho de justiça”. Segundo sua pesquisa, um carvalho leva em média 100 anos para chegar ao seu pleno crescimento. Já pensou que interessante? Diferentemente, dizia ele, uma aboboreira leva em média 6 meses para o pleno amadurecimento. Fica a lição: Por que Deus usou a árvore “carvalho” que leva um bom tempo para crescer e não por exemplo, uma “abóbora”? O fato é que Deus não tem pressa, nós temos, mas Deus não. Tristemente, eu percebi, que estava me tornando uma grande “abóbora de justiça”, sem bases, sem raízes, sem tronco e sem estrutura para suportar as responsabilidades nas quais estava me envolvendo. As conseqüências vieram, mas Deus na sua misericórdia, começou a se mover.

Um livro fundamental em minha vida foi o Chales Swindol, “O Despertar da Graça”. Neste livro o autor fala que os pastores são os que menos conhecem a respeito da graça de Deus. Eu pensei: mas como isso é possível? Os pastores? Mas não são eles os portadores da mensagem do evangelho, da graça de Deus? Mesmo impactado, precisei concordar com esta afirmação de Swindol. Vi nas igrejas por onde ministrei (e também congreguei) a carência da mensagem da graça divina, e mais: como não conseguíamos viver esta verdade em nosso relacionamento com Deus e com nossos irmãos. Hoje sei que é o espírito de religiosidade que rouba nosso amor a Deus e pelos nossos irmãos. Lembro-me de escutar mensagens tão pesadas, que minha vontade era pular de cima do prédio da igreja, pois não compreendia que um Deus tão santo podia me amar e me usar, sendo o sujeito que eu era (embora não adulterasse, roubasse, etc). Mais e mais percebi que “meu evangelho” era baseado apenas no meu desempenho, na minha “ficação-santi” (oposto de santi-ficação,), e isto me fazia cansar mais e mais.

O livro de Swindol confrontou a minha “carne religiosa”. Foi uma leitura maravilhosa e que muito me ajudou tomar consciência de quem eu era, ou melhor, em quem eu havia me tornado: legalista, orgulhoso, distante das pessoas, rígido com os outros, cruel em minhas mensagens, enfim, em uma única palavra, eu diria: religioso! Outra provisão de Deus foi a leitura do livro de Malcom Smith, “Esgotamento Espiritual”. Através deste livro tive um diagnóstico preciso do meu quadro. Smith também passou pelo esgotamento espiritual e emocional, e quando este aborda os inúmeros outros casos de líderes esgotados, este chega a conclusão de que o principal causador deste mal é o “legalismo”. O legalismo é uma das principais marcas do espírito da religiosidade. Quando nosso evangelho está calcado em nós mesmos, através de nosso esforço, tornamo-nos candidatos também ao esgotamento e a “queima” espiritual. Concluí que eu precisava de cura emocional e espiritual. Mas algo ainda mais profundo precisava mudar: a minha teologia, a minha mentalidade! O “fermento de morte” estava presente no meu evangelho.

Enquanto escrevo estas páginas (agosto de 2007), encontro-me em fase de recuperação. Além de a minha esposa me ajudar bastante (honestamente, é o principal meio de Deus falar comigo, depois da Bíblia), das orações, dos livros lidos, ajuda médica, passei também por um acompanhamento emocional com uma amiga e irmã em Cristo, que atua no aconselhamento cristão profissional. Não tenho o processo por acabado, acho até que está no início apenas. Você verá que tirar o “espírito de religiosidade” de nossas vidas é um processo demorado e profundo. Exige mudança de mentalidade. Acredito que a cura é gradativa, haja vista o alcance e “estrago” que este espírito trouxe em nossas vidas. Oro para que prossiga a leitura e discirna também onde foi contaminado, tanto você como sua comunidade.

Antes de entrarmos em nosso tema, faz-se necessário uma explicação. Há pouco tempo, ao comentar sobre o tópico deste assunto em um grupo (sem entrar nos detalhes), uma pessoa chegou a mim e disse-me: Você tem toda razão, eu detesto pessoas que têm este espírito de religiosidade! Antes que assim pense, preciso dizer a você que todos nós, EU e VOCÊ, temos em maior ou menor medida, este espírito de religiosidade. Por que? Porque nossa teologia, nosso evangelho em solo brasileiro, foi contaminado por este espírito. Meu objetivo neste livro é levar você a olhar para si e avaliar o “grau” em que está contaminado. Em termos práticos, creio que existam alguns níveis de religiosidade. O primeiro, eu chamaria de religioso ímpio (R.I). Trata-se daquela pessoa que não conhece a Deus, é um pecador, adultera, pratica feitiçaria, é beberrão, etc., e ainda assim, é religioso. Por exemplo, quando entra no avião, faz o sinal da cruz. Quando chega na semana santa, não come carne, etc. Pois bem, neste nível de religiosidade, a pessoa tão somente incorpora as datas religiosas ou ritos, sem que em nada isto mude o seu comportamento ou relação com Deus. O mundo está cheio destes por aí, concorda?

O segundo nível de religiosidade, eu chamaria de religioso padrão (R.P). Este é aquele que, independente de ser evangélico ou católico, assimila todos os ritos e práticas religiosas, sem que isto traga mudança também para sua vida privada e familiar. A diferença deste religioso padrão para o religioso ímpio, é que este não peca tão escancaradamente, é mais enrustido. O religioso ímpio raramente vai a uma igreja, já o padrão, freqüenta com excelente assiduidade. O R.I não dizima, não oferta, já o religioso padrão o faz com tamanha rigidez. O R.I não prega a Bíblia, já o R.P prega que é uma beleza, alguns até têm ministérios destacados, etc. Qual é então a grande característica do religioso padrão? A hipocrisia. Aqui me lembro da história de uma irmã, casada com um homem que era diácono na igreja. Após anos de sofrimento no seu casamento, devido ao comportamento contraditório do cônjuge, tomou uma decisão quase insana: contratou um caminhão de mudança, colocou toda sua mobília em cima e foi para a igreja. Chegando lá, o pastor, que estava na porta, após um culto, assustado perguntou, “Minha irmã, o que tá acontecendo, onde vai com toda mudança?”. Ela então disse, “Trouxe aqui para igreja, quero me mudar para cá, eu e meus filhos”. O pastor perguntou, “Mas por quê?” Ela finalmente disse, “Lá em casa o meu marido é o capeta em pessoa, espanca os filhos, é um péssimo marido; mas aqui na igreja, ele é um santo. Então eu quero morar aqui na igreja com ele!”. Casos como este, se repetem aos montes. O religioso padrão prega, dizima, alguns não roubam, não adulteram, etc., mas em grande parte, não vivem na sua intimidade aquilo que pregam publicamente. Há uma contradição aguda entre o que falam e o que vivem, entre sua ortodoxia e sua ortopraxia. Você verá adiante, conforme leremos nos Evangelhos, que a hipocrisia era a marca mais acentuada na vida dos fariseus, a ponto de Jesus os chamar de sepulcros caiados!

O meu livro não se proporá a analisar estes dois tipos de religiosidade. Acredito que sobre estes dois níveis de religiosidade a igreja tem até certo ponto algum nível de conhecimento. Meu objetivo será falar de um terceiro grupo: cristãos sinceros contaminados pelo espírito da religiosidade. A meu ver, os dois grupos anteriores não experimentaram o milagre da salvação. O próprio Jesus se dirigiu a um grupo de fariseus, que se intitulavam “filhos de Abraão”, e os chamou de “filhos do Diabo”, pois diferente do que falavam, suas obras em nada testificavam de Abraão, pois o pai deles que era o Diabo! Se você que lê este livro encontra-se no primeiro grupo (religioso ímpio) ou no segundo grupo (religioso padrão, a semelhança dos fariseus), é preciso que você tenha um encontro real com Cristo, para que ele transforme não suas “palavras” mas a sua “vida”! Mas se você encontra-se no terceiro grupo, no qual me incluo (lembre que estou em processo de mudança), gostaria de compartilhar algumas verdades com você, que poderão colocá-lo no caminho em direção à sua cura e libertação.

O espírito da religiosidade é o principal inimigo da igreja. Lembre-se que as palavras mais duras de Jesus foram dirigidas não às prostitutas, roubadores, adúlteros, beberrões, etc., mas aos religiosos da época. Lembre-se que o grupo de maior oposição ao ministério de Jesus foram os religiosos! Lembre-se também que quem entregou Jesus para ser crucificado, não foram os romanos, nem os gregos, mas “os principais sacerdores, anciãos, fariseus, etc” , eles quiseram aniquilar o ministério do messias. Você acha que é diferente nos dias de hoje? O que acontece quando este espírito está no nosso meio? Você não acha estranho que a igreja de Cristo não consiga viver a unidade, o amor e a comunhão que tanto pregamos? Por que temos tantos pastores se digladiando entre si? Por que temos tanta facção em nosso meio? Por que tanta gente cansada e frustrada? O que há de errado? Em minha opinião, o “fermento dos fariseus” que tanto Jesus como Paulo nos alertou, está em nosso meio. Se a igreja de Cristo quiser crescer, amadurecer e cumprir o seu propósito, é necessário uma cura profunda nesta área.

Que Deus tenha misericórdia de todos nós e abra os nossos olhos.

Alcione Emerich

 

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